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Entrevista com Nomadic Massive (Canadá)

Leia a seguir entrevista com integrantes do grupo Nomadic Massive, de Montreal (Canadá), que estará em São Paulo durante esse mês para algumas apresentações e atividades comunitárias, entre elas a atividade descrita abaixo.

No ano de 2008, a Soweto Organização Negra vem construindo o “Círculos de Cultura” em ciclos de diálogos e debates para reflexões e ações. No mês da Consciência Negra, a organização vai promover o encontro de Hip-Hop de diferentes nacionalidades em desdobramento a diálogos entre ativistas e membros do Hip-Hop contemporâneo no Brasil e no mundo iniciado em janeiro de 2007 no Fórum Social Mundial em Nairóbi, no Kenya, quando Panikinho e Toni C. estiveram naquele país e visitaram núcleos de Hip-Hop de lá. Para este encontro, contaremos com a presença dos grupos Nomadic Massive (Canadá), Fator Ético (Aliança Negra Posse), Z’África Brasil e Fantasmas Vermelhos (Núcleo Cultural Força Ativa) para uma breve discussão acerca dos intercâmbios estabelecidos com grupos dos países em questão. Na programação, teremos também a mostra do curta “Negro Como Você!”, feito a partir da ida de brasileiros para o evento de mesmo nome em Montreal (Canadá), em fevereiro deste ano. O evento será encerrado com uma Jam Session com as bandas presentes.

“Diálogos entre culturas: Hip-Hop, Brasil/Canadá/Cuba/Kenya
Horário: a partir das 19h
Endereço: Rua General Jardim 660 – Vila Buarque
Cep: 01223-010 – São Paulo – SP
Fone: 0xx(11) 3151-2333

Cultural Crossroads: Vox Sambou e Lou Piensa

Hip-hop, Haiti e esperança*
Por Stefan Christoff
Tradução:
Liliane Braga¹ (bragaliliane@hotmail.com)

Lou Piensa e Vox Sambou

Lou Piensa e Vox Sambou - foto de Liliane Braga

Cultural Crossroads é uma nova série de entrevistas da revista eletrônica “hour.ca”que enfoca conversas profundas com artistas e atores culturais de Montreal (Quebec – Canadá), todos aqueles que são inspiradores de novas e inovadoras formas de expressões artísticas e de pensamento aqui e ao redor do mundo. A seguir, uma entrevista a fundo com os integrantes do coletivo Nomadic Massive, Vox Sambou e Lou Piensa, sobre o novo álbum de Vox Sambou, Lakay.

Montreal é um centro importante para a diáspora haitiana e os modos culturais e políticos da nação caribenha podem ser fortemente sentidos na cidade. Vox Sambou, um artista emergente do Hip-Hop de Montreal, conta um pouco das histórias do Haiti. Uma figura chave no coletivo global de Rap Nomadic Massive, o seu recém lançado álbum Lakay (Public Transit Recordings) é um início certeiro no qual é tecida uma trama que combina beleza a corajosas narrativas sobre a luta histórica e contemporânea do Haiti por liberdade².

Nascido em Limbe, na costa norte do país caribenho, a jornada musical de Vox Sambou começou com performances na adolescência nos clubes da capital durante os tensos anos políticos que procederam ao primeiro golpe de estado contra o presidente populista do país, Jean-Bertrand Aristide. Em 1995, Vox Sambou deixou o Haiti com sua família e foi para o Canadá, primeiramente para Winnipeg e, posteriormente, para Montreal. Depois de finalizar a universidade, onde o seu trabalho com as raízes do Hip-Hop tomou forma, ele encontrou e integrou o Nomadic Massive.

Vox Sambou e Lou Piensa, ambos do Nomadic Massive e produtores do álbum recém-lançado, sentaram-se com o “Hour” para conversar sobre o estado atual do Hip-Hop em Montreal e o importante papel que o Rap desempenha nos movimentos por mudanças sociais no Haiti, em Montreal e no cenário internacional.

Hour: Qual o significado de alguns dos títulos de músicas que estão no álbum?
Vox Sambou: O nome do álbum é Lakay, que significa “casa” no creole haitiano. A primeira faixa “Ô Haiti”, como outras canções do álbum, fala sobre a situação social e política atuais no Haiti. “Bato”, outra faixa do álbum, explica a situação no Haiti que força haitianos a deixar o país e a viajar para Miami de barco – uma realidade muito familiar na minha própria vida. Crescendo em Limbe (a 200 km da capital Porto-Príncipe), na parte norte da ilha, muitas pessoas jovens partiram para Miami em barcos e nunca mais ouvimos falar deles. Como um álbum, Lakay é uma resposta para a pergunta que muitas pessoas fazem, “Vox, por que o Haiti é do jeito que é, tão pobre ou tão violento?” Este álbum explica a história do Haiti, quantas vezes nós fomos colonizados como nação e como o imperialismo impactou o nosso desenvolvimento. Até hoje somos uma nação ocupada, desde o golpe de estado de 2004. Ambos os governos, dos Estados Unidos e do Haiti, nunca fizeram movimentos para prevenir isso, ou esforços para mudar as condições sociais e econômicas que forçam a população jovem a deixar o país em barcos. As experiências para aqueles haitianos que partiram para a América do Norte nunca são as mesmas que as expectativas que pessoas no Haiti imaginam para a vida nos Estados Unidos ou no Canadá.

Lakay também traz a faixa “Artigo 14”, que conta com participação do MC [iraquiano] Narcycist, que era do grupo Euphrates, e palavras do (lingüista e ativista social estadunidense) Noam Chomsky, que fala sobre o governo dos Estados Unidos sob o governo de Clinton que deportava refugiados haitianos de volta ao Haiti em um momento em que o país estava sob o governo de um violento ditador, General Raoul Cédras. Nesse período, refugiados cubanos eram permitidos de entrar nos Estados Unidos abertamente, enquanto refugiados haitianos, também tentando chegar à Miami, eram forçados a voltar ao Haiti. Nomadic Massive, como uma rede coletiva, propiciou muita inspiração ao álbum Lakay. Esta é minha família musical e o grupo ofereceu suporte total ao projeto.

Hour: Miami e Montreal são dois centros para a diáspora haitiana – lugares que milhares de haitianos transformaram em suas casas. Estou interessado em ouvir o que você pensa sobre como o “sonho norte-americano” é imaginado no Haiti e como isto pode ser comparado à realidade que as pessoas enfrentam quando chegam à América do Norte?
Vox Sambou:
Haitianos vêm para Montreal com um sonho de ter uma vida melhor, mas após a chegada, para a maioria deles aquele sonho está longe da realidade. O racismo é uma realidade que todos os haitianos enfrentam na América do Norte. Integrar-se em uma sociedade onde você tem que encarar o racismo é muito difícil. Outra coisa é que muitos haitianos alimentam o sonho de retornar ao Haiti. Eu encontrei motoristas de táxi que pensam que, após 25 anos em Montreal, ainda vão conseguir retornar ao Haiti. É um sonho perdido. Muitas pessoas mantêm nostalgia em relação ao Haiti. Pessoas que falam como a vida teria sido se elas tivessem permanecido em seu país natal, em vez de ter passado a viver no exterior. Todos os que deixam o Haiti, incluindo os refugiados políticos, são refugiados econômicos. É a situação econômica que força as pessoas a deixar o país e cria instabilidade. Haitianos não emigrariam para a América do Norte se houvesse justiça econômica para todos os haitianos.

Vox Sambou, Panikinho e Gaspar (Z'África Brasil), foto de Liliane Braga

Vox Sambou, Panikinho e Gaspar - foto de Liliane Braga

Hour: Você pode falar como este lançamento, Lakay, se encaixa no Nomadic Massive como um conjunto, que tem sido um projeto chave no que diz respeito a unir vozes de diferentes esquinas do planeta aqui em Montreal?
Lou Piensa:
Para o Nomadic Massive, casa é em nenhuma parte e em toda parte. Hoje muitas pessoas pelo mundo estão cruzando fronteiras, encarando deslocamentos e […] “experienciando” muito mais do que os bloqueios de suas próprias cidades. Essa realidade global é óbvia para o Nomadic Massive, assim a música que nós fazemos e as composições do grupo representam isso. O lançamento do Vox Sambou é outro lançamento do Nomadic Massive, mas Vox é o seu condutor principal, contando histórias do seu ponto de vista. A música é multilíngüe no álbum, com Raps em espanhol, inglês, francês e creole.

Este álbum, e também o álbum do Nomadic Massive, expressa universalismo em um sentido sem cair na armadilha convencional do termo, universalismo significando que música é sobre dar-se conta de que a história é uma, que todo mundo está ligado por uma história comum. Pegue por exemplo a faixa “Toussaint Louverture”. Ele é uma figura crítica na libertação do Haiti, mas no continente americano ou no Canadá muitos não aprendem a seu respeito no mesmo sentido que pessoas entendem Louverture no Haiti – um símbolo de libertação em todo o mundo. Em muitos livros, a história real do Haiti não está presente. Louverture não está presente.

Hour: Como o Nomadic Massive documenta a história do povo usando o Hip-Hop?
Sambou: No Nomadic Massive um sentimento universal está presente – há membros do Iraque, Chile, Argentina, Algéria e outros países. Apesar de termos vindo de lugares tão diferentes, nós temos muito em comum, por exemplo, a paixão que temos por música, a paixão que temos pelo Hip-Hop, a paixão que temos por justiça social mundo afora. Essas coisas nos unem.

Na minha música, os desafios que nós enfrentamos atualmente no Haiti estão presentes. São desafios que a mídia não discute com freqüência e são desafios presentes no meu crescimento no Haiti. Por exemplo, hoje, o Haiti está sendo forçado por poderes externos a abrir completamente suas fronteiras para companhias estrangeiras, especialmente companhias da República Dominicana, dos Estados Unidos e do Canadá, companhias que lucram com o Haiti sem retornar tal lucro ao país. Por meio da minha música eu tento contar histórias sobre injustiças sociais que estão sendo vividas por Haiti e pelos haitianos hoje e no passado.

Lou Piensa: Eventos no Haiti são frequentemente cobertos pela mídia sem apresentação do contexto. Histórias de violência e seqüestro são comuns – entretanto, são contadas de maneira a demonizar uma população inteira, não de uma forma que explique as razões pelas quais essas coisas estão acontecendo no Haiti.

Hour: Em Montreal, a música Rap está sempre se expandindo – há muitos projetos empolgantes acontecendo na cidade. Também há uma tendência em direção a um Hip-Hop mais consciente socialmente e voltado a questões globais. Você pode falar sobre Lakay nesse contexto da cena Hip-Hop de Montreal e essa natureza global cada vez maior no Hip-Hop daqui?
Lou Piensa:
O Nomadic Massive gira em torno de se dar conta de que nós somos maiores do que nossas experiências: nós estamos baseados em Montreal, mas todos nós experimentamos ou viemos de diferentes partes do mundo. Hip-Hop hoje cresceu a esfera de um fenômeno global e nós como um grupo em Montreal, estamos conectados a esse movimento Hip-Hop global. Coisas interessantíssimas estão acontecendo ao redor do mundo por meio do Hip-Hop e o Nomadic Massive está construindo algo conectado a essa cena global.

Vox Sambou: Este álbum é realmente a reflexão de Montreal, de todas as pessoas dessa cidade. Ainda que o álbum fale bastante de eventos no Haiti, ele é inspirado em muitas pessoas presentes em Montreal, histórias de pessoas de todo o mundo que me ajudaram efetivamente a falar de maneira mais nítida sobre o Haiti. Montreal tem sorte em agregar tamanha diversidade, e no contexto do Hip-Hop, música de todo o mundo influencia a nossa musicalidade. Neste álbum você pode sentir música do resto do mundo, dado que o Nomadic Massive está representando tantos países e culturas ao redor do mundo. Hip-hop é global, não há fronteiras para o Hip-Hop.

Brasileiros e canadenses juntos - foto de Liliane Braga

Brasileiros e canadenses juntos - foto de Liliane Braga

Para maiores informações, acesse:
www.voxsambou.com
www.myspace.com/nomadicmassive
www.myspace.com/voxsambou

* Entrevista publicada originalmente em 14 de agosto de 2008 no endereço
http://www.hour.ca/news/news.aspx?iIDArticle=15329

¹ Liliane Braga esteve em Montreal com os MCs Gaspar e Panikinho a convite de Lou Piensa e Vox Sambou em fevereiro deste ano, para atividades do mês da consciência negra canadense. O início dessa história está em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=29483.

²
Nota da tradução: O Haiti foi o único país da diáspora africana em que a revolta que deu fim à escravidão foi a mesma que deu fim ao jugo do país em relação à França (país europeu pelo qual foi colonizado), em 1791. Toussaint Louverture – líder da insurreição em questão – é, para os haitianos, o que representam para o Brasil Zumbi dos Palmares e Luís Gama juntos, uma vez que Toussaint Louverture, que havia sido escravo até os 45 anos de idade, vivenciou o fim da escravidão pela qual lutou. O curto texto do sociólogo Emir Sader publicado por ocasião do aniversário de 200 anos do Estado Negro do Haiti ajuda a entender essa história:
http://www.consciencia.net/2004/mes/01/sader-haiti.html.

Categorias:Entrevistas
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