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Entrevista com DJ RM

10 dezembro, 2008 5 comentários

DJ RM

DJ RM

Rodrigo Antônio Mello tem 29 anos, mora na zona leste de São Paulo e é mais conhecido pela sigla RM. Ele está há pouco tempo na cena, mas já marcou o seu nome, bem como o de sua Crew de DJs, na história do Hip-Hop brasileiro. Ele foi o representante brasileiro na final do DMC na Inglaterra em 2008, depois de vencer a eliminatória brasileira. Por duas vezes bateu na trave do Hip-Hop DJ – campeonato que foi jurado esse ano – fazendo dobradinha com o seu parceiro no Clã Leste DJs, o DJ Erick Jay, atual campeão.

RM também é produtor e tem feito muitos remixes e alguns beats para grupos como o Irmandade Negra e seus integrantes. Também foi convidado pelo rapper Xis, para mixar a Xis Tape Vol. 01, função que desempenhou muito bem. Mas sem dúvida, o feito mais importante foi representar o Brasil no campeonato de DJs mais importante do mundo.

Em uma breve entrevista, o DJ que é meio tímido pra falar, respondeu perguntas sobre o início da carreira como DJ, a viagem para a Inglaterra, Hip-Hop DJ e as suas produções.

Revista Elementos: Quando e como começou o seu contato com o Hip-Hop?
DJ RM:
Foi com um primo meu, ele ouvia Pepeu, Naldinho e eu gostei da pegada do som ai já era!

R.E: A partir desse primeiro contato, quando você passou a se interessar e ter vontade de ser DJ?
DJ RM
: Ser DJ foi bem depois, eu ia nas festinhas e ficava só olhando pro DJ e achava louco, é um bagulho inexplicável, tá ligado? Comecei a pensar só nisso, ai ferrou!

R.E: Porque RM? Você mesmo colocou esse apelido?
DJ RM:
RM veio de um grupo que fiz com um parceiro da área, tinha que ter uma sigla né, ai ficaram as iniciais do meu nome mesmo R de Rodrigo e M de Mello.

Capa da Xis Tape Vol.01

Capa da Xis Tape Vol.01

R.E: Você lembra quando e como foi a primeira vez que você tocou? Que equipamento era?

DJ RM: A primeira foi num três em 1 da minha mãe, zuei todo de tanto treinar nele!!!!

R.E: Qual foi o seu primeiro equipamento e o primeiro disco?
DJ RM:
Um par de Gradientes sem pitch e um mixer Berzek, arame total, mas quando é pra ser é né cara, não importa o equipamento, importa a vontade! O primeiro disco, se não me engano, foi o do Naldinho, “Melô da Lagartixa”.

R.E: Você prefere tocar em clubes, fazer performances ou tocar pra MCs?
DJ RM:
Performance eu curto mais, é mais difícil ta ligado? Você fica mais ágil até pras outras opções que você falou.

R.E: A sua memória para o uso de colagens é ótima, um MC te mostra uma música e na hora você já pega um disco e seleciona uma colagem. Você escuta até o fim todos os discos que você tem? Como consegue memorizar tantas colagens para usar em determinadas músicas?
RM:
Os que eu tenho acesso eu ouço bastante tá ligado? Quanto a memorizar, sei lá cara… Se você der um tema eu tento lembrar de alguma frase que eu já ouvi, se possível em vinil.

R.E: Quando você participou do HHDJ pela primeira vez e qual foi a sua colocação? Você já tinha o par de toca-discos nessa época, se não tinha como você ensaiava?
RM:
A primeira vez foi em 2003, fui pra repescagem e consegui ir pra final, mas não peguei uma boa colocação, mas valeu pra conhecer o clima. Eu não tinha toca discos não, treinava na casa do DJ Buiu, ele que me incentivou a entrar, ai tô até hoje.

R.E: E o Clã Leste, quando começou, desde quando você faz parte e quem são os integrantes?
RM:
O Clã começou em 2000. por ai, o DJ Zulu que teve a idéia de montar uma banca, o Jerry e o Erick estão desde o começo, eu só entrei em 2003. Conheci os caras no Hip-Hop DJ, tinha uns caras da zona sul também, o nome era Clã Leste-Sul por isso. Agora só tem DJ da zona leste: eu, o Buiu, Jerry, Soares, Erick Jay e o Zulu.

R.E: Você tem produzido alguns instrumentais, fala pra mim quando começou a produzir e quais os equipamentos e programas que você já usou e quais usa atualmente?

RM: Eu sempre gostei de produzir, até sem saber que tava fazendo isso tá ligado? Eu tinha um mixer Gemini com sample, tocava as batidas nos vinis e jogava em cima uns samples. Antes disso fazia uns loops no toca fitas, mó zica! Hoje em dia tenho o computador, faço umas bases nos programas, bem mais fácil, uso o Fruit Loops 8, o Logic e o Sound Forge.

R.E: Você já tem algum equipamento que substitua os vinis, tipo o serato? O que você pensa sobre o uso desses equipamentos?

RM: Ainda não tenho, mais já toquei e curti, tenho uma CDX que dá pra fazer scratch também, é da hora, mas o vinil é insubstituível, é minha opinião, acho válido as tecnologias, mas o vinil é fóda!

R.E: Quanto tempo você demora pra montar uma performance pra um campeonato? Monta sozinho, ou os outros DJs da Crew ajudam?
RM:
Eu na verdade monto por partes. Uma batida aqui, um scratch ali, depois junto tudo e mostro pros caras pra ver o que eles acham, se tiver que mudar alguma coisa, eu mudo, mas é por ai.

R.E: Antes do campeonato um mostra pro outro a performance que preparou?
RM:
Pode crê, agente não tem rivalidade tá ligado? A rivalidade é só no palco, fora dele é nóis!

R.E: E a preparação pro DMC, como foi, já que os critérios eram bem mais rígidos que os do HHDJ, inclusive com jurados internacionais?
RM:
Pra falar a verdade eu não tava nem na pegada de entrar, entrei mais pela insistência dos caras, daí montei uma parada que eu já tinha na manga, que eu já tinha até usado. O Jurassic 5 e o Xis. O Jurassic eu tinha feito na eliminatória do Hip-Hop DJ 2006 e o Xis eu usei na final do mesmo ano, juntei os dois e fiz no DMC, sem pretensão nenhuma de ganhar, foi louco demais cara (risos).

R.E: Como foi na Inglaterra: sua colocação, o contato com os outros DJs, a cidade, etc…
RM:
Cara, acolocação eu não sei até agora, porque eles só divulgam até o quinto, eu tô entre os 10 do mundo isso eu sei (risos), vou sair no DVD do DMC 2008, foi muita honra representar o Brasil e principalmente os parceiros. Quanto ao país, é louco né cara, conhecer outra cultura, foi louco demais dar um rolê por lá, os DJs foram bem receptivos, quando sabiam que eu era brasileiro os caras queriam trocar idéias, vários são doidos pra vir prá cá.

R.E: Você lembra detalhes da sua performance na final, os discos que usou, se teve algum erro grave, algo do tipo?
RM:
Eu fiz a mesma que fiz aqui na final brasileira, quanto a erros acho que errei menos que aqui, fui bem lá, por incrível que pareça tava tranqüilo, foi da hora.

R.E: O que achou do campeão, foi merecido?
RM:
Cara, eu não vi ele tocar, tava no camarim trocando idéia com os DJs, mas deve ter sido boa, foi o DJ Fly né, humildão, tipo o Rafik, muito firmeza também.

R.E: Trouxe muitos discos de lá? Fala ai alguns que eram difíceis de encontrar aqui ou muito caros.
RM:
Trouxe mais álbuns, comprei a maioria na mão do DJ Pogo, entre eles A Tribe Called Quest, Afu-ra, MOP, o primeiro do Wu Tang, fora outros do Wu Tang também. Muito barato lá, aqui é osso, muito caro”. O primeiro do Biz Markie, muito fóda, aqui não acha nem fodendo! Coisas assim, tá ligado?

R.E: Atualmente, além do Clã, quais seus outros projetos?
RM:
Fora o Clã, tem uns projetos com o Buiu, na Arame Records, tô fazendo umas paradas com o Xis, logo mais a Xistape 2 por ai, mixada pelo Erick. Outras mix tapes que tenho na manga, uma delas tem o nome “Resgatando a Essência”, só com Rap nacional dos anos 90, já tá pronta falta lançar, tô fazendo umas produções com o BV (Irmandade Negra) no solo dele que chama “Astro Sagitário” e várias outras coisas que eu não lembro agora.

R.E: E os planos pra 2009?
RM:
Entrar no DMC pra defender o titulo né, registrar a Arame Records pra lançar nossos próprios trampos e logo mais a mix tape do Rato Manhoso mixada por mim e pelo Erick Jay, logo mais quem não sabe quem é o Rato Manhoso vai saber depois dessa mix tape, é isso ai por enquanto.

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Entrevista com Mr. Fê

10 dezembro, 2008 5 comentários
Fe e o Big Ben (Londres)

Fe e o Big Ben (Londres) às 15h

Um dos responsáveis pelo evento de B.boys mais importante do país, fez uma pequena tour pela Europa em novembro de 2008. Mr-Fe (Street Breakers), responsável pela organização e realização do Master Crews, embarcou com destino a Suiça, onde foi assistir ao evento Circle Kingz, que teve como representantes brasileiros, integrantes da DF Zulu.

Em uma pequena entrevista ele fala sobre o que conheceu por lá, suas impressões sobre a Cultura Hip-Hop e claro sobre o Master Crews, que aconteceno próximo domingo (14/12).

Ainda na Inglaterra

Ainda na Inglaterra

Revista Elementos: Qual foi o motivo da sua “mini-turnê” pela Europa e durou quantos dias?
Mr-Fe
: O motivo principal de minha turnê era fugir dos eventos POP´s  de B.Boys que aconteciam pelo mundo e que sempre se vê a mesma coisa, gente dançando, pintando e tocando por fama e duram no máximo alguns anos e param, sempre acreditei  que não são esses que compõem a verdadeira cultura real e geralmente eles chegam fazem uma baita arruaça e vão embora deixando a sujeira pra quem é real limpar. Em segundo lugar fui para conhecer pessoas que fazem as coisas acontecer, que tem a mesma ideologia ou semelhante a nossa, essa longa mini turnê durou exatamente 14 dias de muito frioooooo.

Momento compras

Momento compras

R.E: Participou de eventos, foi a shows?
Mr-Fe
: Fui inicialmente a um evento que eu e minha Crew já gostávamos de assistir em DVD o Circle Kingz (Suiça),  pois reunia  os “não estrelas” e até então nenhum brasileiro tinha ido até lá, mesmo porque não faz o perfil de 90% dos B.Boys brasileiros que vão pra fora do país, pois o evento é de criação e personalidade na dança e geralmente reúne Crews de verdade, tinha gente de toda parte do mundo representando sua Crew e seu estilo particular de dançar, aconteceram Before parties, After parties e inúmeras festas de Funky, Rap, logo na seqüência depois de conhecer inúmeras pessoas do mundo todo e ter a oportunidade de dançar com eles fui para Londres aonde fui recebido por um truta, o Dj D.Vyzor, que foi uma dos primeiros DJs das festas que fazíamos nos lançamentos da Revista SB e fizemos o rolê mais underground nos dois sentidos (Metrô e o Desconhecido), festa de funky que os DJs tocavam somente de vinil 7 polegadas, nessa festa por exemplo fui recebido na roda com dedos na cara e tive o prazer de batalhar com um dos B.Boys mais antigos da Europa, o Perves (40) que deixa qualquer moleque de 15 anos pra trás de olhos fechados e com os membros da 7$ UK, por ironia do destino, pois tinha acabado de sair da casa dos membros da 7$ da suíça (risos).

7$ (Seven Dollars), Fe e DF Zulu

7$ (Seven Dollars), Fe e DF Zulu

R.E: Das pessoas que conheceu, alguma delas têm idéia ou conhecem algo sobre o Hip-Hop brasileiro?
Mr-Fe
: Com certeza conhecem , na Suíça o pessoal da DF zulu já era esperado para competir no Circle kingz, por terem competido e ganhado a eliminatória nacional, mas mesmo assim eles conhecem o que a mídia coloca por ai – sempre lembrando que no meio do B.Boy há eventos “bussines” também, que tem o intuito de elevar o nome de alguns B.boys para a glória como um produto, do mesmo jeito que acontece com o Rap, e o Brasil não escapa dessa mídia e infelizmente somente alguns são escolhidos e não os melhores. Quando chegamos na Suíça a primeira coisa que ouvi foi:  “eu imaginava que no Brasil o pessoal só fazia mortal” e supreendentemente Master Crews já era assistido não só na Suíça, mas por alguns outros B.boys de países europeus .  Em Londres tive uma ótima surpresa, nós brasileiros somos vinculados a artes em geral, música, dança, artes visuais ao invés do que imaginava, brasileiros são bem vindos por lá, eles pouco sabem sobre o Hip-Hip original daqui,  conversando e fazendo comparações  sobre o que acontecem em ambos lugares eles ficaram surpresos, pois parte das coisas que acontecem lá, aqui também acontecem com intensidade maior e às vezes de qualidade superior também.

Underground

Underground

R.E: Por conta dessa viagem, podemos esperar alguma atração internacional no Master Crews 2008 ou em eventos futuros?
Mr-Fe:
(risos) Eventos como o Master Crews sempre teve como prioridade a cultura nacional, nunca foi de nossa filosofia investir um valor pra trazer alguém de fora como atração, creio que eles tem que vir pra cá por conta própria, pois nós vamos visitar os países deles por conta própria. Então nada mais justo que eles fazerem o mesmo, mais graças as amizades feitas por lá, com certeza teremos gringos no Master Crews 2008. Todos os esforços feitos de nossa parte vão para a nossa cultura nacional e não pros gringos vir aqui pra passear, eles são bem vindos, mas não há lógica eu pegar o pouco de verba que temos e dedicar isso ao exterior, gostaríamos de interagir com eles, mas honestamente sem pagação de pau, os dois lados aprendendo.

Papel (DF Zulu) e Fe (SB) na Circle Kingz

Papel (DF Zulu) e Fe (SB) na Circle Kingz

R.E: Como está a preparação pro evento desse ano, já está tudo certo? Qual a expectativa?
Mr-Fe
: Como sempre Master Crews é um grande evento em proporção e em  trabalho, mas felizmente sempre sai uma grande festa,  porque tanto a equipe que realiza e trabalha no Master quanto o público que comparece em massa, vindo de todos os cantos do Brasil e agora do mundo, trazendo consigo muita alegria e um sentimento diferente das outras festas, “Master Crews é diversão garantida”!  A expectativa pra esse ano é maior, como todos os anos houve um crescimento de estrutura, público e qualidade da dança, também mais passos firmes sem promessas não cumpridas, esse ano teremos muitos estados brasileiro presentes do norte ao sul do país e também B.boys e B.Girls de diferentes partes do mundo. Quem não conhece venha ver o que o Master tem de especial, feito com carinho e por quem é da cultura real!

Luz a todos.
Mr-Fe (Street Breakers CRU / Spray Studio)

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Entrevista com Kamau

10 dezembro, 2008 1 comentário
Capa do disco

Capa do disco

MC Kamau é sem dúvida um dos mais criativos e inovadores da cena nacional, além, é claro, de estar sempre atento aos novos MCs, DJs e produtores que surgem. Após 10 anos fazendo Rap, ele lançou esse ano o seu primeiro disco solo, intitulado “Non Ducor Duco” (Não sou conduzido, conduzo). O título é em latim e é o que está escrito no Brasão da Prefeitura da Cidade de São Paulo, onde o MC nasceu, cresceu e vive até hoje. A relação com a cidade em que vive e o momento atual foram os motivos para a escolha desse título.

Quem acompanha o seu trabalho tem conhecimento da vasta discografia de Kamau, uma quantidade de músicas e participações que dariam dois ou três álbuns, mas nesse disco ele colocou apenas músicas inéditas. Até aqui o disco vendeu pouco mais de 1.500 cópias, um número significativo para um artista independente.

O disco traz as participações de: Emicida, Rashid, Stefanie, Rincon Sapiência, Parteum, Rael da Rima, Jeffe, Carlos Avont’s, Thalma de Freitas e os DJs William e Kl Jay. As produções são do próprio Kamau, DJ Suissac (Mzuri Sana), Nave, Parteum, DJ Primo, Munhoz e Filiph Neo.

Esse 1º álbum do Kamau, que quase que por inteiro, foi gravado e mixado por Vander Carneiro no Atelier Studio, transparece a maturidade profissional e artística atingida por ele. A qualidade do disco não pode ser medida pela conquista ou indicação há algum prêmio, ainda mais quando esse prêmio é julgado por quem não entende de Rap. Pois é isso que esse disco é, um disco de Rap, com DJs fazendo scratches, colagens, rimas inteligentes, graves, grooves e samples. Vale lembrar que é mais um lançamento do seu selo, o Plano Áudio.

Kamau será uma das atrações do Indie Hip-Hop 2008, ele se apresenta no domingo (14/12) junto com Projeto Manada, Enézimo e Talib Kweli. Leia a entrevista abaixo e saiba mais detalhes sobre o disco.

Brasão da Cidade de São Paulo

Brasão da Cidade de São Paulo

Revista Elementos: Quando surgiu na sua cabeça a idéia de lançar um álbum solo?
Kamau:
A idéia já existia há algum tempo, mas começou a ser colocada em prática em 2004 após o show do Hieroglyphics.

R.E: Nos seus outros projetos os títulos dos discos foram: Prólogo, Sinopse e Escuta aí. Porque agora “Non Ducor Duco”?
Kamau:
Cada disco tem sua razão de ser e a razão para cada titulo. O Prólogo foi uma espécie de introdução ao disco que o Conseqüência faria, o começo da história que queríamos contar. A mixtape Sinopse foi um resumo de uma história que vinha desde o Conseqüência até o momento de seu lançamento em 2005, passando por participações e letras incompletas perdidas no caderno. O Escuta Ai foi assim pensado para que as pessoas primeiro ouvissem o trabalho antes de rotular, prática muito comum em relação ao Rap. Capitulo I: Non Ducor Duco é o primeiro capitulo de uma história por mim contada, que começou no Prólogo e não sei onde nem quando termina. O lema da cidade de São Paulo veio a calhar no momento em que me encontrava: Tomando sozinho as decisões e direções para onde eu irei. E tem também relação com a minha ligação com a cidade onde nasci, cresci e vivo.

R.E: O que é Plano Áudio?
Kamau:
É um selo, um nome, uma firma de uma pessoa só: Eu. É o nome que acompanhará os trabalhos onde eu estiver diretamente envolvido e bancando. Começou oficialmente no disco do Simples e esse é o segundo lançamento.

R.E: A maioria dos MCs que participam do disco, fazem parte de uma nova geração do Rap paulista. A sua intenção, os chamando pra participarem do disco, é lançar esses novos MCs pelo Plano Áudio?
Kamau:
Não. A intenção com cada participação foi chamar pessoas talentosas com as quais convivo para contribuir com esse capítulo. Cada MC tem muito a ver com a minha visão de cada titulo da música onde participam.

R.E: Ainda falando sobre esses MCs, muitos deles (Rincon, Emicida, Rashid) tem a prática de fazer freestyle, assim como você. Você sente ou eles te falam que foram influenciados pelo seu trabalho?
Kamau:
Eles já me disseram algo do gênero, mas sinto que com a convivência acabamos influenciando uns aos outros. Sou realmente apreciador do trabalho de todos que contribuíram com o disco, antes de mais nada.

Kamau (Divulgação)

Kamau (Divulgação)

R.E: Quem contratar um show seu, o que pode esperar e quem vai estar no palco com você?
Kamau:
Pode esperar Rap feito do jeito que eu aprendi. Cresci ouvindo a tão falada “Era de Ouro do Rap” e isso aparece sempre no palco. Cada show é diferente e tem sua peculiaridade. A formação atual do “time” é: Kamau, Jeffe e DJ Erick Jay.

R.E: Até hoje você é conhecido como um dos melhores MCs de freestyle do país, durante um tempo tinha pessoas que achavam que você só fazia freestyle, assim como pensavam isso do Slim, Max B.O, Marechal, etc. Você fez um trabalho, direcionou a sua carreira no sentido de se desvincular dessa imagem?
Kamau:
Eu apenas trabalhei mais na parte das músicas escritas e decoradas. Foi assim que eu comecei e essa é a herança que vai ficar pros meus filhos. Freestyle é instantâneo. Cada canção tem seu jeito de atravessar os tempos e influenciar mais do que um momento.

R.E: Quais os equipamentos e programas que você tem usado para criar suas bases?
Kamau:
MPC 2000 e MPC 500, além de Sound Forge e discos antigos. Nesse disco fiz algumas no Fruity Loops também, quando estive na casa do Nave em Curitiba.

R.E: Dando uma geral em todas as músicas, quais foram as inspirações na hora de compor, criar e escolher instrumentais e produtores?
Kamau:
Eu penso primeiro no titulo de cada som e no conceito que quero seguir. Aí procuro o instrumental que melhor se adapta a cada conceito, que dá o melhor clima pra canção. Tenho várias influências musicais e vários amigos talentosos. Essa é minha maior vantagem.

R.E: Alguma música inédita ficou fora do disco?
Kamau:
Músicas prontas, não.

kamau041

Kamau (Divulgação)

R.E: Agora que o disco está nas ruas, quase 1500 cópias vendidas (até onde sei), quais os próximos passos?
Kamau:
Fazer shows, principalmente. E estou captando imagens desde o começo das gravações e a intenção é fazer um DVD com toda a caminhada desse disco, incluindo ensaios, shows e depoimento dos envolvidos.

R.E: Fale sobre a sua parceria/amizade com o DJ Primo e a importância dele, não só nesse trabalho, mas na sua carreira, na sua vida e na Cultura Hip-Hop.
Kamau:
Talvez o PR!MO tenha sido o maior incentivador desse disco. Quando ele saiu do outro trampo, que tomava mais o tempo dele, nós imediatamente concordamos em trabalhar juntos e a partir dai o disco começou realmente a ser feito. O PR!MO era um amante da cultura como um todo e poucos puderam perceber esse amor além dos toca-discos. Mas era inegável a interação que ele tinha com as MKs. E com isso ele contribuiu muito na visão de vários DJs, fossem eles de show, balada, eventos de B.boy ou que tocam com MCs.

R.E: Quando teremos novidades sobre músicas ou algum projeto novo que você esteja envolvido?
Kamau:
Quando elas existirem. O disco nem andou ainda e já querem novidades?

R.E: Espaço aberto para contatos e agradecimentos.
Kamau:
Agradeço aos que contribuíram pra que esse disco se concretizasse direta ou indiretamente. Gostaria de agradecer principalmente a Vander Carneiro pela paciência e pelos ensinamentos e a todos que contribuem para que a música continue se sustentando e agraciando os mais variados ouvidos, mentes e corações pelo mundo.

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Entrevista com DJ TR

Ele é DJ, membro da Zulu Nation Brasil, educador social e também escritor. Estou falando do carioca da Cidade de Deus conhecido como DJ TR, que lançou em 2007, depois de 5 anos de muita luta, o livro “Acorda Hip-Hop! – Despertando um movimento em transformação”.

O livro foi lançado exatamente em novembro de 2007 pela Aeroplano Editora, como parte da série literária “Tramas Urbanas”, que conta ainda com os livros “Poesia Revoltada”, de Écio Salles e “Trajetória de Um Guerreiro”, do DJ Raffa (Baseado nas Ruas).

O livro começa com a história do nascimento de cada um dos elementos da Cultura Hip-Hop nos Estados Unidos e também a chegada da Cultura no Brasil. Após esses capítulos de história, o autor aborda dezoito questões que dizem respeito ao Hip-Hop brasileiro, divididas em capítulos. É aí que entra as opiniões das personalidades do Hip-Hop sobre os seguintes temas:

Conservadores Vs. Comerciais; Rap à Brasileira; Rap Vs. Funk Carioca; Graffiti e Break Vs. Rap; Grupos Vs. Bandas; Identidade do Rap Carioca; Identidade do Rap Carioca (parte II); Hip-Hop Vs. Mulher; Hip-Hop Vs. Rap na Mídia; O Hip-Hop e a Política; O Hip-Hop e Sua Ação Social; O Hip-Hop Nacional no Mercado Aberto; Rappers Pretos Vs. Rappers Brancos; Rap Político Vs. Rap Marginal; Ativismo Pesado ou Excesso de Realismo?; Hip-Hop Contra as Drogas; Estamos Confrontando o Sistema ou a Nós Mesmos e União, Será Que Entendemos o Verdadeiro Sentido Dessa Palavra?.

Para opinar sobre esses assuntos, TR entrevistou: Mano Brown (Racionais MCs), DJ Marcelinho (Beat Choro e ex-Câmbio Negro), Mara (rapper e militante), DJ Johnny (ex-DJ de MT Bronx e editor do site Real Hip-Hop), Clodoaldo Arruda (ONG Geledés), Elza Cohen (Zoeira Hip-Hop), DJ Juan, RDO (rapper e militante), Rooney Yo-Yo (ex-fundador do Sindicato Negro, criador da grife Pixa-In e promotor de eventos para B.boys), Só Calcinha (Grafiteira e militante), Nelboy (rapper angolano e militante), DJ Deco (ex-Jigaboo), Magno C-4 (rapper e B.boy), Bad (Grafiteiro e B.boy), Nino Brown (líder da Zulu Nation Brasil), Bonga (Grafiteiro e militante), Suave (rapper) e Big Richard (rapper, escritor, ator e apresentador).

A obra ainda conta com o prefácio do músico Marcelo Yuka (ex-baterista do Rappa) e contracapa do escritor Paulo Lins, autor do livro Cidade de Deus. Dos livros sobre Hip-Hop feitos em português, esse é sem dúdiva o mais completo, com grande riqueza de detalhes e opiniões de personalidades que participaram diretamente da construção do Hip-Hop no Brasil.

Sobre o autor – TR é carioca, DJ, acompanhou MV Bill por mais de 10 anos, em carreira solo e também no grupo Geração Futuro, que era formado por MV Bill, MV Michel e DJ TR. O grupo gravou a faixa “Malcom X” na coletânea Tiro Inical, onde estavam presentes todos os grupos da extinta ATCON (Associação Atitude Consciente), inclusive Gabriel O Pensador. TR era o coordenador da ATCON, começou como escritor no Jornal Afroreggae Notícias, foi colaborador do Jornal Estação Hip-Hop por 2 anos, é membro fundador do COMDEDINE (Conselho Municipal de Defesa dos Direitos dos Negros), pesquisador do Projeto Geração Hip-Hop (SESC-RJ/FINEP), Educador Social da Prefeitura do Rio de Janeiro, onde atende moradores de rua e por último é colunista e colaborador dos sites: Rap Nacional, Enraizados, Zulu Nation Brasil, LUB e Rio Festa.

Leia a entrevista a seguir e saiba mais detalhes sobre o livro e o DJ.

Capa do Livro

Capa do Livro

Revista Elementos: Há quanto tempo você planeja escrever um livro sobre o Hip-Hop e por quê?

DJ TR: Foi algo repentino. Inicialmente a minha intenção era alertar toda a Comunidade Hip-Hop para um mal eminente que se instalava em Movimentos, constituídos por todo o território nacional, através de uma coluna que possuía no extinto Jornal Afroreggae Notícias, do Grupo Cultural Afroreggae: a Desigualdade no Hip-Hop Nacional… A vontade de escrever este artigo – intitulado de Acorda Hip-Hop! – foi uma resultante das muitas viagens que fiz, quando ainda integrava o projeto do rapper MV Bill. Percebi que, nos muitos lugares por onde passei, existiam muitos desafetos entre os adeptos cuja grande maioria não pensava no Hip-Hop como uma filosofia de vida capaz de resgatar vidas por meio de sua proposta positivista… “O negócio era se dar bem sem se preocupar com os meios”… Aqui no Rio, a mentalidade também não era diferente. Conversando na época com o meu irmão zulu King Nino Brown (líder Zulu Nation Brasil) sobre o fato, fui alertado por ele que muitos de nossos irmãos praticavam o Hip-Hop sem o devido CONHECIMENTO acerca da nossa própria Cultura (Hip-Hop) e de outras tantas existentes ao nosso redor. Deste modo pude entender que, por mais que o jornal tivesse uma abrangência considerável por quase todo o país, um simples artigo não provocaria tanto efeito quanto a publicação de um livro, por exemplo. Sendo assim, meio que sem saber como fazê-lo, exatamente, decidi, sob as muitas orientações do meu grande irmão Écio Salles – que na época era redator do Afroraggae Notícias e mais tarde veio a ser um dos curadores da série Tramas Urbanas, por onde o livro saiu –, escrever as primeiras páginas do Acorda Hip-Hop!. E foram sete anos de muita pesquisa e muita luta… Morei, inclusive, por quase três anos aí em São Paulo para respirar melhor os ares dessa nossa Meca do Hip-Hop Nacional… Se fosse falar a fundo das intempéries por que passei, talvez tivesse de lançar outra obra para tratar desse assunto (risos).

R.E: O livro começa com um resumo da história do Hip-Hop, quais as foram as suas fontes de pesquisa?

DJ TR: A princípio algumas documentações por meio de revistas (americanas e nacionais), zines de alguns segmentos sérios do Hip-Hop nacional, jornais (americanos e nacionais) e Documentários como o Scratch, por exemplo… Outra grande ajuda veio por meio de irmãos como DJ Alan Beat (Sampa Crew), que deu uma tour pelo início da construção do Hip-Hop de São Paulo. Irmãos como a dupla de amigos Kinho e Paulo Jr., que, além de me ajudarem nas primeiras digitações (pois não possuía ainda um PC para registro, tendo que me condicionar às folhas de caderno), me traziam o tempo todo jornais e revistas antigos que continham matérias sobre as primeiras movimentações de Hip-Hop em Sampa e irmãos como o próprio rapper angolano Nelboy, que traduziu como ninguém muitos textos de algumas revistas, jornais americanos e documentários. Isto sem mencionar todos os ilustres convidados que depositaram na Obra muito dos seus conhecimentos e experiências marcantes junto ao Movimento… Mas não foi fácil, pois as informações sobre o Hip-Hop americano se conflitavam o tempo inteiro e precisei desenvolver muito do senso lógico também para eliminar o máximo de contradições quanto a fatos e datas. Um primo meu, o Pr. Selmo Reis, que vive nos EUA como pastor Auxiliar na Saint John Primitive Baptist Church de Delray Beach, Flórida, me ajudou muito neste tipo de enfrentamento pela verdade dos fatos e acredito que consegui alcançar aquilo que propunha em fazer com dignidade.

R.E: O livro é quase que inteiro focado no Rap, assim como todos os outros feitos no Brasil, mas os temas debatidos no livro tratam mais de questões ideológicas do que a música em si. Você não acha que o Rap carece dessa discussão técnica, sobre a qualidade do que vêm sendo produzido? Você não acha também, que tem muita gente colocando a ideologia à frente da música e por isso perdendo em qualidade musical?

DJ TR: Acredito que “Ideologia”, “Fanatismo” e “Hipocrisia” são termos ainda muito confundidos em nossa sociedade, que fazem destes termos sinônimos…, e com o Hip-Hop não poderia ser diferente, pois antes de sermos Movimento, somos Povo e estamos inseridos de alguma forma nesta sociedade, quer aceitemos ou não, quer eles nos aceitem ou não… Certa feita o rapper americano “KRS-One” disse, em uma entrevista, que a “Educação” precisava caminhar lado a lado com o “Capital” e que nenhum desses elementos poderia estar em desalinho para que a Cultura (Hip-Hop) não fosse massacrada… Ocorre que muitos irmãos ainda não entenderam que a ideologia pode ser aplicada de diversas maneiras… Às vezes o que se canta, nem sempre é o que se aplica na prática através de uma política social verdadeira. Por outro lado, muito da ideologia que é passada na música, é uma ideologia apenas daquele “Rap” que está sendo executado e não do próprio “Hip-Hop”. Talvez essa falta de identidade relacionada à Cultura da qual se faz parte, e pouco se conhece, seja a razão do empobrecimento de uma política de profissionalização voltada para nossos irmãos rappers. Acredito que, fugir do viés ideológico – pois o Hip-Hop é assim caracterizado desde a sua origem e foi dessa maneira que chegamos também até ele –, não seja a melhor atitude para uma possível qualidade musical, pois o jazz, o blues, o reggae, o samba não eliminaram a ideologia de sua essência. O que precisamos na realidade é entender como podemos trabalhar essa ideologia por meio do rap de forma inteligente para o enriquecimento intelectual de nossa juventude, tanto como a samba foi no passado e alguma coisa da MPB ainda é para os intelectuais, respeitando sempre as diferenças de estilos contidos na música Rap.

R.E: O que você pensa sobre o tratamento que alguns dão ao Hip-Hop, como movimento político, sendo que ele é uma Cultura que traduzida pro português significa “balançar o quadril”, ou seja, é uma cultura que surgiu da festa, da celebração dos seus elementos?

DJ TR: Façamos uma rápida viagem pelo Túnel do Tempo… O ano é 1974 e estamos na sede da Universal Zulu Nation, no bairro do Bronx… Durante um ano, o fundador dessa entidade, conhecido como “DJ Afrika Bambaataa”, tem se preocupado em desenvolver ações positivas entre os muitos jovens talentos do gueto que utilizam como ninguém suas habilidades nos campos da música, da dança e das artes plásticas urbanas… Mas Bambaataa passa por muitos problemas para organizar estes jovens devido a conflitos entre gangues hispânicas e negras por domínio territorial, consumo e tráfico de drogas. Isto sem falar que muitos, também, por desenvolver melhor seu dom do que outros apresentavam certos problemas de ego… Afrika Bambaataa percebeu que precisaria muito mais do que um espaço para conscientizar estes jovens… Por estas razões, ele decide, neste mesmo ano – ao lado dos amigos DJs Kool Herc e Grand “Master” Flash – , adotar uma filosofia de vida que viesse a norteá-los em seu resgate social. Eis que surge o “Hip-Hop”, uma regra de conduta social completa, que traz em seu significado “Balançar o Quadril”, sim, por ter sido baseado nas festas de rua que o ilustre Kool Herc promovia; mas também por ser um termo muito popular nos guetos desde os anos 60, popularizado por personalidades como o “DJ Hollywood” que utilizava a expressão “Hip-Hop-Duh-Hip-Hop-Duh-Hop” para entreter e interagir com os freqüentadores durante os eventos… Aliás, foi o próprio Afrika Bambaataa quem afirmou, em muitas de suas entrevistas, que se inspirou diretamente nas lutas e ensinamentos dos grandes líderes afro-americanos (Pr. Martin Luther King, Malcolm X, Louis Farrakhan, o partido Panteras Negras, etc.) para formar o Hip-Hop. Ocorre que muitos de nós, da Comunidade Hip-Hop Nacional, ainda confunde “Politização” com “Partidarismo Político”. O Hip-Hop é apartidário, mas por ser uma Cultura em constante movimento, ligada a uma macro-sociedade organizada politicamente, como é o caso da sociedade brasileira, deve, sim, direta ou indiretamente, de acordo com a aptidão de seus adeptos, estar envolvido nas decisões da nação enquanto Movimento Formador de Opinião Influente… O fato do Hip-Hop ter nascido em meio às celebrações festivas não quer dizer absolutamente nada, pois todos os grupos sociais africanos (tribos) sempre procuraram se organizar politicamente tendo os eventos festivos como um rito para manifestar suas ideologias. Isto, conscientemente falando ou não, está presente nos traços da diáspora africana e o Hip-Hop é um resultado disso também… O que os adeptos da Cultura Hip-Hop devem fazer urgentemente é buscar conhecer melhor o Movimento Cultural do qual fazem parte, reportando-se à pessoa de Afrika Bambaataa, conhecendo assim os propósitos que o levaram a constituir algo que fosse benéfico para as juventudes das quatro raças do planeta através de um saber sem limites, baseado no respeito abrangente a todos os seres viventes.

R.E: Como tem sido a repercussão do livro, o que você tem sentido de retorno?

DJ TR: A grande ajuda que tenho recebido de sites como o Bocada Forte, revistas do gênero e os próprios irmãos envolvidos direta ou indiretamente com a Obra, além da mídia secular, tem me levado a palestrar e debater em muitos lugares do país por meio de entidades (escolas públicas e Universidades, centros sociais e culturais, ONGs, Projetos, etc…) para discutir as atuais conjecturas do Movimento, com base nas nossas origens enquanto Cultura de Massa. No dia 10 de julho deste ano, por exemplo, estive aqui no Rio me reunindo na unidade do SESC Madureira com os professores da 5ª CRE (Coordenadoria Regional de Educação da Prefeitura do Rio), palestrando acerca do “Hip-Hop que não é Televisionado”, pois estes estavam fazendo uma grande confusão entre o Hip-Hop pregado pela indústria do enlatado e a nossa Cultura (Hip-Hop) de base… Foi bem interessante, pois ao fim do nosso bate-papo eles entenderam que nem sempre o que pode nos representar verdadeiramente está à exposição tão facilmente… Às vezes é preciso caminhar bastante para encontrar…

R.E: Quais foram os critérios para a escolha das pessoas que deram depoimentos no livro?

DJ TR: A vontade de dar a Cara para Bater foi o principal critério… Pessoas sem nome e também de renome, mas de grande conteúdo argumentativo, estiveram envolvidas neste projeto. Todas com profunda vivência no Hip-Hop e algumas até com bastante conhecimento de causa acerca da matéria… Minha intenção principal foi realmente demonstrar — através da imparcialidade, da qual mantive durante todo o tempo em que os entrevistei — as diversidades de opiniões existentes em um único Movimento, a fim de provocar uma grande discussão em páginas; o que acabou gerando um debate bem acirrado onde todos os envolvidos acabou tendo conhecimento das opiniões do companheiro somente após a publicação da obra… O mais importante para mim foi dar ao leitor o sentimento de que ele também está participando dessa discussão, em prol de um Hip-Hop melhor e mais acessível a todos, independendo se ele já participa do Movimento ou não, pois o “inclusivismo” é o grande viés de nossa Cultura (Hip-Hop), desde que este a entenda e respeite seus preceitos e as diferenças encontradas em seus adeptos…

R.E: Agora que o livro está pronto, o que você acha que faltou? Algum tema a ser debatido, faltou algum nome, algum fato…

DJ TR: Sempre vai faltar algo, por questões de limitação da própria pesquisa no sentido de não ter conseguido em tempo aquilo que se queria, ou por só ter descoberto algum determinado assunto após a publicação da obra… Para isso não ocorrer ou diminuir tais riscos, o Acorda Hip-Hop! deveria ser uma enciclopédia de vários fascículos e esta nunca foi a intenção inicial… Quem sabe um dia…?! No campo da dança, por exemplo, a House Dance e o Hip-Hop Freestyle foram duas modalidades que não entraram em minhas pesquisas. Mas isso é muito bom também, pois abrirá a oportunidade para que outro irmão possa publicar uma obra registrando estes acontecimentos marcantes, e ou até mesmo resgatando a memória histórica do Movimento Hip-Hop da sua cidade… O importante disso tudo para mim é saber que posso contribuir para o incentivo direto ou indireto de futuros escritores do Hip-Hop, como é o que já está acontecendo aqui no Rio com o irmão “DJ Boneco”, que iniciou uma verdadeira exploração da história acerca da Cultura DJ e suas influências nas origens de muitos movimentos cariocas como o Movimento Black Rio, por exemplo…

R.E: O Rio de Janeiro tem revelado MCs muito talentosos, que se preocupam em fazer música Rap e entendem muito da música que fazem. Além disso, também tem revelado DJs e Grafiteiros (as). Como você, que é um dos pioneiros do Hip-Hop carioca, vê o crescimento da cena por ai?

DJ TR: Embora a escola da qual eu faça parte tenha se rompido ao final dos anos 90, restando apenas um quantitativo bem inferior ao original, devido a uma série de pressões, da qual uma delas certamente foi a financeira; vi iniciativas — como foi o caso do “Zoeira Hip-Hop”, evento promovido pela minha querida irmã “Elza Cohen” — acontecerem de modo positivo revelando os futuros talentos do Hip-Hop Carioca dos anos 2000… No entanto acredito ser ainda muito prematuro avaliar esta cena como um todo, pois a mesma ainda está sofrendo uma série de mutações (positivas e negativas), pertinentes a qualquer Movimento em crescimento com referências pouca ou nenhuma da Primeira Escola diluída por alguns problemas. Acredito, sem sombra de dúvidas, no talento da grande maioria que compõe a cena atual do Hip-Hop Carioca, mas gostaria de ressaltar que nenhum Movimento, seja ele qual for, sobrevive com a devida saúde, se não estiver ligado às suas origens. É importante que todos se preocupem com as informações que estão ao seu redor e com a sua própria história… Hoje tem um Acorda Hip-Hop! para ajudar a muitos, amanhã poderão ter outros registros literários e audiovisuais para auxiliar neste resgate de memória da Cultura (Hip-Hop).Quanto ao Crescimento, até rabo de cavalo cresce; só que para baixo… A Nova Escola precisa considerar mais quem veio antes, infelizmente ainda são poucos que têm essa consciência e isto acontece, em nível nacional, não apenas aqui no Rio. Como já dizia o Poeta Jorge Aragão: “Respeite quem pode chegar onde a gente chegou…”

R.E: Como DJ, está tocando em alguma festa, pra algum grupo ou desenvolvendo qualquer atividade ligada a discotecagem?

DJ TR: Atualmente estou me dedicando mais ao Universo Literário e a minha própria família… Atualmente estou tendo a grande oportunidade de ser pai de uma menininha linda de dois aninhos e gostaria de poder dedicar o pouco tempo que tenho a minha casa… Trabalhar na noite hoje me atrapalharia neste sentido… Mas quem sabe num futuro bem próximo…?! Às vezes auxilio a realização de alguns eventos, mas nada que me tire plenamente de dentro de casa… Só o meio literário tem me consumido bastante, e graças a Deus de forma positiva!

R.E: Tem planos de lançar outro livro?

DJ TR: Certamente. Mas pretendo dar um pouco mais de atenção para o Acorda Hip-Hop!, pois acredito que muitos estados ainda estão sem acesso a esta obra… Criar uma ponte entre o Sistema de Ensino Público e o próprio Hip-Hop ainda é um dos meus objetivos por meio desta obra e espero alcançar este sucesso.

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Entrevista com Nomadic Massive (Canadá)

Leia a seguir entrevista com integrantes do grupo Nomadic Massive, de Montreal (Canadá), que estará em São Paulo durante esse mês para algumas apresentações e atividades comunitárias, entre elas a atividade descrita abaixo.

No ano de 2008, a Soweto Organização Negra vem construindo o “Círculos de Cultura” em ciclos de diálogos e debates para reflexões e ações. No mês da Consciência Negra, a organização vai promover o encontro de Hip-Hop de diferentes nacionalidades em desdobramento a diálogos entre ativistas e membros do Hip-Hop contemporâneo no Brasil e no mundo iniciado em janeiro de 2007 no Fórum Social Mundial em Nairóbi, no Kenya, quando Panikinho e Toni C. estiveram naquele país e visitaram núcleos de Hip-Hop de lá. Para este encontro, contaremos com a presença dos grupos Nomadic Massive (Canadá), Fator Ético (Aliança Negra Posse), Z’África Brasil e Fantasmas Vermelhos (Núcleo Cultural Força Ativa) para uma breve discussão acerca dos intercâmbios estabelecidos com grupos dos países em questão. Na programação, teremos também a mostra do curta “Negro Como Você!”, feito a partir da ida de brasileiros para o evento de mesmo nome em Montreal (Canadá), em fevereiro deste ano. O evento será encerrado com uma Jam Session com as bandas presentes.

“Diálogos entre culturas: Hip-Hop, Brasil/Canadá/Cuba/Kenya
Horário: a partir das 19h
Endereço: Rua General Jardim 660 – Vila Buarque
Cep: 01223-010 – São Paulo – SP
Fone: 0xx(11) 3151-2333

Cultural Crossroads: Vox Sambou e Lou Piensa

Hip-hop, Haiti e esperança*
Por Stefan Christoff
Tradução:
Liliane Braga¹ (bragaliliane@hotmail.com)

Lou Piensa e Vox Sambou

Lou Piensa e Vox Sambou - foto de Liliane Braga

Cultural Crossroads é uma nova série de entrevistas da revista eletrônica “hour.ca”que enfoca conversas profundas com artistas e atores culturais de Montreal (Quebec – Canadá), todos aqueles que são inspiradores de novas e inovadoras formas de expressões artísticas e de pensamento aqui e ao redor do mundo. A seguir, uma entrevista a fundo com os integrantes do coletivo Nomadic Massive, Vox Sambou e Lou Piensa, sobre o novo álbum de Vox Sambou, Lakay.

Montreal é um centro importante para a diáspora haitiana e os modos culturais e políticos da nação caribenha podem ser fortemente sentidos na cidade. Vox Sambou, um artista emergente do Hip-Hop de Montreal, conta um pouco das histórias do Haiti. Uma figura chave no coletivo global de Rap Nomadic Massive, o seu recém lançado álbum Lakay (Public Transit Recordings) é um início certeiro no qual é tecida uma trama que combina beleza a corajosas narrativas sobre a luta histórica e contemporânea do Haiti por liberdade².

Nascido em Limbe, na costa norte do país caribenho, a jornada musical de Vox Sambou começou com performances na adolescência nos clubes da capital durante os tensos anos políticos que procederam ao primeiro golpe de estado contra o presidente populista do país, Jean-Bertrand Aristide. Em 1995, Vox Sambou deixou o Haiti com sua família e foi para o Canadá, primeiramente para Winnipeg e, posteriormente, para Montreal. Depois de finalizar a universidade, onde o seu trabalho com as raízes do Hip-Hop tomou forma, ele encontrou e integrou o Nomadic Massive.

Vox Sambou e Lou Piensa, ambos do Nomadic Massive e produtores do álbum recém-lançado, sentaram-se com o “Hour” para conversar sobre o estado atual do Hip-Hop em Montreal e o importante papel que o Rap desempenha nos movimentos por mudanças sociais no Haiti, em Montreal e no cenário internacional.

Hour: Qual o significado de alguns dos títulos de músicas que estão no álbum?
Vox Sambou: O nome do álbum é Lakay, que significa “casa” no creole haitiano. A primeira faixa “Ô Haiti”, como outras canções do álbum, fala sobre a situação social e política atuais no Haiti. “Bato”, outra faixa do álbum, explica a situação no Haiti que força haitianos a deixar o país e a viajar para Miami de barco – uma realidade muito familiar na minha própria vida. Crescendo em Limbe (a 200 km da capital Porto-Príncipe), na parte norte da ilha, muitas pessoas jovens partiram para Miami em barcos e nunca mais ouvimos falar deles. Como um álbum, Lakay é uma resposta para a pergunta que muitas pessoas fazem, “Vox, por que o Haiti é do jeito que é, tão pobre ou tão violento?” Este álbum explica a história do Haiti, quantas vezes nós fomos colonizados como nação e como o imperialismo impactou o nosso desenvolvimento. Até hoje somos uma nação ocupada, desde o golpe de estado de 2004. Ambos os governos, dos Estados Unidos e do Haiti, nunca fizeram movimentos para prevenir isso, ou esforços para mudar as condições sociais e econômicas que forçam a população jovem a deixar o país em barcos. As experiências para aqueles haitianos que partiram para a América do Norte nunca são as mesmas que as expectativas que pessoas no Haiti imaginam para a vida nos Estados Unidos ou no Canadá.

Lakay também traz a faixa “Artigo 14″, que conta com participação do MC [iraquiano] Narcycist, que era do grupo Euphrates, e palavras do (lingüista e ativista social estadunidense) Noam Chomsky, que fala sobre o governo dos Estados Unidos sob o governo de Clinton que deportava refugiados haitianos de volta ao Haiti em um momento em que o país estava sob o governo de um violento ditador, General Raoul Cédras. Nesse período, refugiados cubanos eram permitidos de entrar nos Estados Unidos abertamente, enquanto refugiados haitianos, também tentando chegar à Miami, eram forçados a voltar ao Haiti. Nomadic Massive, como uma rede coletiva, propiciou muita inspiração ao álbum Lakay. Esta é minha família musical e o grupo ofereceu suporte total ao projeto.

Hour: Miami e Montreal são dois centros para a diáspora haitiana – lugares que milhares de haitianos transformaram em suas casas. Estou interessado em ouvir o que você pensa sobre como o “sonho norte-americano” é imaginado no Haiti e como isto pode ser comparado à realidade que as pessoas enfrentam quando chegam à América do Norte?
Vox Sambou:
Haitianos vêm para Montreal com um sonho de ter uma vida melhor, mas após a chegada, para a maioria deles aquele sonho está longe da realidade. O racismo é uma realidade que todos os haitianos enfrentam na América do Norte. Integrar-se em uma sociedade onde você tem que encarar o racismo é muito difícil. Outra coisa é que muitos haitianos alimentam o sonho de retornar ao Haiti. Eu encontrei motoristas de táxi que pensam que, após 25 anos em Montreal, ainda vão conseguir retornar ao Haiti. É um sonho perdido. Muitas pessoas mantêm nostalgia em relação ao Haiti. Pessoas que falam como a vida teria sido se elas tivessem permanecido em seu país natal, em vez de ter passado a viver no exterior. Todos os que deixam o Haiti, incluindo os refugiados políticos, são refugiados econômicos. É a situação econômica que força as pessoas a deixar o país e cria instabilidade. Haitianos não emigrariam para a América do Norte se houvesse justiça econômica para todos os haitianos.

Vox Sambou, Panikinho e Gaspar (Z'África Brasil), foto de Liliane Braga

Vox Sambou, Panikinho e Gaspar - foto de Liliane Braga

Hour: Você pode falar como este lançamento, Lakay, se encaixa no Nomadic Massive como um conjunto, que tem sido um projeto chave no que diz respeito a unir vozes de diferentes esquinas do planeta aqui em Montreal?
Lou Piensa:
Para o Nomadic Massive, casa é em nenhuma parte e em toda parte. Hoje muitas pessoas pelo mundo estão cruzando fronteiras, encarando deslocamentos e [...] “experienciando” muito mais do que os bloqueios de suas próprias cidades. Essa realidade global é óbvia para o Nomadic Massive, assim a música que nós fazemos e as composições do grupo representam isso. O lançamento do Vox Sambou é outro lançamento do Nomadic Massive, mas Vox é o seu condutor principal, contando histórias do seu ponto de vista. A música é multilíngüe no álbum, com Raps em espanhol, inglês, francês e creole.

Este álbum, e também o álbum do Nomadic Massive, expressa universalismo em um sentido sem cair na armadilha convencional do termo, universalismo significando que música é sobre dar-se conta de que a história é uma, que todo mundo está ligado por uma história comum. Pegue por exemplo a faixa “Toussaint Louverture”. Ele é uma figura crítica na libertação do Haiti, mas no continente americano ou no Canadá muitos não aprendem a seu respeito no mesmo sentido que pessoas entendem Louverture no Haiti – um símbolo de libertação em todo o mundo. Em muitos livros, a história real do Haiti não está presente. Louverture não está presente.

Hour: Como o Nomadic Massive documenta a história do povo usando o Hip-Hop?
Sambou: No Nomadic Massive um sentimento universal está presente – há membros do Iraque, Chile, Argentina, Algéria e outros países. Apesar de termos vindo de lugares tão diferentes, nós temos muito em comum, por exemplo, a paixão que temos por música, a paixão que temos pelo Hip-Hop, a paixão que temos por justiça social mundo afora. Essas coisas nos unem.

Na minha música, os desafios que nós enfrentamos atualmente no Haiti estão presentes. São desafios que a mídia não discute com freqüência e são desafios presentes no meu crescimento no Haiti. Por exemplo, hoje, o Haiti está sendo forçado por poderes externos a abrir completamente suas fronteiras para companhias estrangeiras, especialmente companhias da República Dominicana, dos Estados Unidos e do Canadá, companhias que lucram com o Haiti sem retornar tal lucro ao país. Por meio da minha música eu tento contar histórias sobre injustiças sociais que estão sendo vividas por Haiti e pelos haitianos hoje e no passado.

Lou Piensa: Eventos no Haiti são frequentemente cobertos pela mídia sem apresentação do contexto. Histórias de violência e seqüestro são comuns – entretanto, são contadas de maneira a demonizar uma população inteira, não de uma forma que explique as razões pelas quais essas coisas estão acontecendo no Haiti.

Hour: Em Montreal, a música Rap está sempre se expandindo – há muitos projetos empolgantes acontecendo na cidade. Também há uma tendência em direção a um Hip-Hop mais consciente socialmente e voltado a questões globais. Você pode falar sobre Lakay nesse contexto da cena Hip-Hop de Montreal e essa natureza global cada vez maior no Hip-Hop daqui?
Lou Piensa:
O Nomadic Massive gira em torno de se dar conta de que nós somos maiores do que nossas experiências: nós estamos baseados em Montreal, mas todos nós experimentamos ou viemos de diferentes partes do mundo. Hip-Hop hoje cresceu a esfera de um fenômeno global e nós como um grupo em Montreal, estamos conectados a esse movimento Hip-Hop global. Coisas interessantíssimas estão acontecendo ao redor do mundo por meio do Hip-Hop e o Nomadic Massive está construindo algo conectado a essa cena global.

Vox Sambou: Este álbum é realmente a reflexão de Montreal, de todas as pessoas dessa cidade. Ainda que o álbum fale bastante de eventos no Haiti, ele é inspirado em muitas pessoas presentes em Montreal, histórias de pessoas de todo o mundo que me ajudaram efetivamente a falar de maneira mais nítida sobre o Haiti. Montreal tem sorte em agregar tamanha diversidade, e no contexto do Hip-Hop, música de todo o mundo influencia a nossa musicalidade. Neste álbum você pode sentir música do resto do mundo, dado que o Nomadic Massive está representando tantos países e culturas ao redor do mundo. Hip-hop é global, não há fronteiras para o Hip-Hop.

Brasileiros e canadenses juntos - foto de Liliane Braga

Brasileiros e canadenses juntos - foto de Liliane Braga

Para maiores informações, acesse:
www.voxsambou.com
www.myspace.com/nomadicmassive
www.myspace.com/voxsambou

* Entrevista publicada originalmente em 14 de agosto de 2008 no endereço
http://www.hour.ca/news/news.aspx?iIDArticle=15329

¹ Liliane Braga esteve em Montreal com os MCs Gaspar e Panikinho a convite de Lou Piensa e Vox Sambou em fevereiro deste ano, para atividades do mês da consciência negra canadense. O início dessa história está em http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=29483.

²
Nota da tradução: O Haiti foi o único país da diáspora africana em que a revolta que deu fim à escravidão foi a mesma que deu fim ao jugo do país em relação à França (país europeu pelo qual foi colonizado), em 1791. Toussaint Louverture – líder da insurreição em questão – é, para os haitianos, o que representam para o Brasil Zumbi dos Palmares e Luís Gama juntos, uma vez que Toussaint Louverture, que havia sido escravo até os 45 anos de idade, vivenciou o fim da escravidão pela qual lutou. O curto texto do sociólogo Emir Sader publicado por ocasião do aniversário de 200 anos do Estado Negro do Haiti ajuda a entender essa história:
http://www.consciencia.net/2004/mes/01/sader-haiti.html.

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